quarta-feira, 12 de setembro de 2007

POLÍTICA, RELIGIÃO E BANALIZAÇÃO DA ESPIRITUALIDADE


Prof. Manoel Messias Peixinho

Dai pois a Cesar o que é de Cesar, e a Deus o que é de Deus”
(Marcos:12:17).

Os gregos inventaram a política e foram os pais da democracia. O sucesso da política estava no comprometimento do grego com os direitos e deveres do Estado.(pólis) Os cidadãos participavam ativamente das decisões e tinham, claramente, a consciência da separação entre as coisas do Estado e a vida privada. O discurso religioso, que legitimou a fase mitológica grega, cedeu lugar ao discurso racional, voltado, exclusivamente, às necessidades materiais da sociedade. As leis eram aplicadas por magistrados que fundamentavam suas decisões no direito e não nos oráculos divinos. Destarte, da nítida separação entre religião, vida privada e política, adveio a idéia de Estado laico. Porém, quando a decadência da democracia grega se fez sentir, mormente no final do século IV a.C., os novos líderes associaram os cargos públicos aos cultos religiosos e as funções clássicas do Estado passaram a ser confundidas com a amizade pessoal e com interesses de grupos ou facções. Em síntese, como afirma M.I. Finley: “a política desaparecera; não havia legado da cidade-Estado como organismo político, no mundo grego pós-Alexandre”.
A herança grega muito nos ensina. Em primeiro lugar, religião e política não se confundem. Não se quer, contudo, com tal assertiva, advogar uma ideologia que defenda a dicotomia política/religião. O fiel é aquele que acredita no seu destino como escolhido por Deus, mas, também, luta pela transformação da sociedade, participando de associações de moradores, de partidos políticos, ou simplesmente, exercendo o direito de voto. Contudo, o crente deve separar a sua religiosidade dos destinos terrenos do Estado. Em segundo lugar, a participação na vida política é impessoal. Os líderes políticos não podem utilizar-se da fé para alcançar seus desígnios, fazendo da religião um discurso mediador da política. Aquele que invoca a Deus como senhor de seu projeto político e manipula os crentes, infundindo-lhes o proselitismo eleitoral, assume, unicamente, uma estratégia personalista. Afirmar que a vontade de Deus é que guiará o seu destino como político, é forjar a despolitização, transformando a religião em instrumento a serviço de uma missão puramente pessoal. Em terceiro lugar, a politização da religião destrói o ideal de um Estado laico, concebido para respeitar o pluralismo em determinada sociedade, sem qualquer vinculação a grupos religiosos. O político messiânico, ao incorporar a religião como ideologia partidária, cultiva a formação de guetos religiosos, inspira o fanatismo e aniquila a possibilidade da construção de uma consciência cívica. Em conseqüência, a política deixa de ser a expressão da cidadania participativa e passa a figurar como vocação pessoal, que nasce do carisma do líder. Assim, a associação da política com a religião se transformam numa âncora de uma ideologia narcisista e populista, infundindo falsamente no crente a idéia de que a sua fé está irremediavelmente condicionada aos apelos do pseudoprofeta, investido de político. Finalmente, quem acredita em Deus com decência e honestidade sabe que a pior alienação é a politização da religião e a conseqüente banalização da espiritualidade.

#Teólogo e professor de Direito da PUC-RIO, da UCAM e do FDC.

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